Nenhum comandante militar na história já venceu uma batalha sozinho. Para ter sucesso, ele precisa do apoio de um exército bem treinado que o seguirá, independentemente do custo, rumo à vitória impressionante ou à derrota sem esperança. Basta lembrar de Leônidas, que corajosamente conduziu seus 300 espartanos à derrota inevitável durante a Batalha das Termópilas. A história teve sua cota de líderes habilidosos - Júlio César, Aníbal e, posteriormente, Napoleão Bonaparte.
Porém, estes três homens devem prestar homenagem a um simples indivíduo e seu exército. Alexandre, o Grande conquistou a maior parte do mundo conhecido em sua época. Ele herdou do pai, o rei Filipe II da Macedônia, um exército versátil e bem treinado, diferente de tudo o que existira até então. Unidos pelo mesmo propósito, lutavam como um só. Alexandre reconhecia isso e, segundo relatos, teria dito: "Lembrem-se que da conduta de cada um depende o destino de todos".
Embora Alexandre deva muito de seu sucesso à presciência de seu pai, as conquistas do jovem rei no campo de batalha podem ser rastreadas até a origem da falange hoplita da Grécia primitiva. Por volta de 700 a.C., as cidades de Corinto, Esparta e Argos criaram uma formação de batalha bem ordenada que ficou conhecida como falange. A razão para este desenvolvimento deve-se, em parte, às mudanças que ocorriam na Grécia. A região emergia de um período sombrio de sua história - os tempos conturbados do poeta Homero. Houve o surgimento da polis ou cidade-estado e a expansão das colônias, fundadas em áreas próximas, como a Jônia, ou bem mais distantes, como a Sicília. Com a expansão do comércio e do mundo grego, as cidades precisavam aprender a se defender por conta própria, fosse por motivos econômicos ou políticos.
Os Primórdios da Arte da Guerra Grega
Duas poderosas cidades-estados ascenderam para dominar a Grécia. Atenas se tornou uma potência naval e Esparta emergiu como uma cidade militar atípica, instituindo um código de conduta estrito, que previa o treinamento militar intensivo para os cidadãos. Foi o nascimento do cidadão-guerreiro, do qual se exigia que defendesse a cidade em época de guerra. Embora um jovem espartano aprendesse o suficiente para ser alfabetizado, acostumava-se principalmente a suportar a dor e prevalecer no campo de batalha, lutando, em essência, como um grupo, não como indivíduo. A cidade em si parecia um acampamento armado. Este treinamento intensivo ficou evidente quando a Grécia foi invadida pelos persas, sob o comando de Dario I e, posteriormente, de seu filho Xerxes.
O novo tipo de soldado era um hoplita, assim denominado em virtude de seu escudo, o hoplon. Para proteção adicional, usava um elmo (mais frequentemente no estilo coríntio) que cobria a maior parte do rosto, exceto por uma abertura em forma de T que expunha os olhos, nariz e boca (infelizmente, não permitia visão periférica); Filipe o substituiu pelo elmo frígio, que proporcionava audição e visibilidade melhores. A armadura hoplita incluía grevas para cobrir as panturrilhas, uma couraça moldada que protegia o torso e uma túnica longa e pregueada para a proteção do abdômen e virilha. Seu armamento consistia numa lança cujo comprimento variava de 1,52 m a 2,43 m. Os soldados marchavam numa formação fechada e bem ordenada - a falange -, na qual cada hoplita carregava seu escudo de maneira a proteger seu lado esquerdo e o lado direito do vizinho. Este novo estilo de combate era principalmente ofensivo, avançando em linha para o centro da formação inimiga.
Um Exército Disciplinado e Organizado
Quando Filipe II se tornou rei da Macedônia, em 359 a.C., herdou um exército relativamente ineficaz. De imediato, iniciou uma série de reformas militares. Juntos, Alexandre e seu pai criaram um exército diferente de tudo que o mundo antigo já tinha visto. Os conflitos anteriores, como a Guerra do Peloponeso e contra os persas, demonstraram que as velhas táticas não eram mais confiáveis. Filipe transformou um grupo de soldados pouco disciplinados num exército formidável. A maior parte dos historiadores acredita que o rei macedônio desenvolveu suas ideias em seu período como refém, observando o célebre Batalhão Sagrado de Tebas. Para começar, ele aumentou o tamanho da infantaria de 10.000 para 24.000 homens e da cavalaria de 600 para 2.500 cavaleiros; não se tratava mais de um exército de cidadãos-guerreiros. Além disso, criou um corpo de engenheiros para desenvolver armas de cerco, como torres e catapultas. Mais tarde, Alexandre empregaria estas torres de cerco com efeitos devastadores na cidade fenícia de Tiro (6.000 habitantes mortos e 30.000 escravizados).
A própria natureza da falange requeria treinamento constante e os dois soberanos exigiam obediência estrita; punições seriam aplicadas aos desobedientes. Como Alexandre depois dele, Filipe exigia um juramento de fidelidade ao rei. Eles forneciam os uniformes - uma ideia simples, que dava a cada soldado um senso de unidade e solidariedade. Além do óbvio, havia uma lógica subjacente a tudo o que faziam; cada soldado não mais seria leal a uma cidade ou província em particular, mas apenas ao rei. Os veteranos endurecidos pelas batalhas que lutaram por Filipe e Alexandre permaneciam dedicados ao seu rei e à glória da Macedônia. Essa lealdade e os efeitos da reestruturação militar se tornaram evidentes na vitória de Filipe sobre Atenas e Tebas (com a ajuda de Alexandre, de dezoito anos) na Batalha de Queroneia, que demonstrou o poder e a autoridade da Macedônia.
Filipe reestruturou completamente o exército. A primeira ordem do dia foi a reorganização da falange, com cada unidade dispondo de um comandante próprio, o que dava melhores condições de comunicação. A unidade de combate fundamental tornou-se a taxis, que geralmente consistia em 1.540 homens, comandados por um taxiarca. A taxis subdividia-se em três lochoi, com 512 soldados cada, comandadas por um lochagos. Por sua vez, as lochoi compunham-se de 32 dekas (linha com 10 homens e, posteriormente, com 16). Cada homem ocupava somente dois côvados de espaço (cerca de 1,32 m) até o momento da batalha, quando passava a usar somente um côvado.
Armas e Táticas
Em seguida, Filipe mudou o principal armamento da lança hoplita para a sarissa - uma lança com comprimento entre 5,4 a 6 m -, que tinha a vantagem de um alcance muito maior do que as empregadas pelos oponentes. Obviamente, o comprimento da sarissa dificultava o manuseio, exigindo força e destreza. O hoplita tornou-se então o pezhetairoi [pezétero] ou companheiro a pé. Como seu predecessor, ele também portava um escudo, chamado de aspis, similar ao hoplon, mas, devido ao tamanho da sarissa (que precisava ser carregada com as duas mãos), ficava preso a uma faixa sobre o ombro. Além da sarissa, cada soldado dispunha de uma espada menor, de dois gumes, chamada xifos, para o combate corpo-a-corpo.
Havia somente uma desvantagem da falange: ela funcionava melhor em áreas planas e sem acidentes naturais; porém, apesar disso, Alexandre a utilizou com incrível sucesso. Em quase todas as campanhas, a formação do exército alexandrino permaneceu a mesma; no entanto, devido à natureza do campo de batalha, algumas mudanças foram feitas na Batalha do Rio Hidaspes, na qual os arqueiros ficaram na vanguarda para enfrentar os elefantes do Rei Poro. Os pezhetairoi ocupavam o centro; os hipaspistas ficavam à direita e a cavalaria em cada um dos flancos. Os arqueiros e a infantaria leve adicional atuavam nos flancos externos e na retaguarda. O treinamento dos pezhetairoi exigia a manutenção da formação em todas as circunstâncias, embora fossem capazes de desfazê-la brevemente quando necessário; isso ficou evidente na Batalha de Gaugamela contra os carros de combate equipados com lâminas de Dario. Na batalha, as cinco primeiras fileiras baixavam suas sarissas em paralelo ao solo, enquanto as linhas da retaguarda (geralmente usando chapéus de palha de abas largas, chamados kausia, em vez de elmos) mantinham as suas na vertical.
Como indicado antes, à direita destes pezhetairoi estavam os bem mais ágeis hipaspistas, também chamados de portadores de escudos. Ainda que não tão fortemente armados - carregavam somente uma lança ou dardo mais curto - eles exerciam um papel de destaque nos exércitos macedônios. Eram recrutados por sua perícia e físico e passavam por treinamentos especiais. Em sua maioria, provinham do campesinato da Macedônia, sem afiliações tribais ou regionais e, portanto, sua lealdade voltava-se somente ao rei. Havia três classes distintas de hipaspistas - os "reais", que serviam como guarda-costas do rei, bem como sentinelas em banquetes e eventos oficiais; uma força de elite conhecida como argyraspids [argiráspidas], e, finalmente, o corpo de soldados hipaspistas. Uma força especial de veteranos dentro dos hipaspistas se tornaria conhecida como os Escudos de Prata.
Cavalaria
Nos flancos direito e esquerdo postava-se a cavalaria. Os cavaleiros eram a principal força de ataque do exército, efetuando o avanço decisivo nas linhas inimigas - isso ficou evidente nas batalhas do Grânico, Isso e Gaugamela. Havia duas divisões de cavalaria - os Companheiros e os prodromoi -, a última das quais composta pelos mais flexíveis e versáteis cavaleiros balcânicos, utilizados principalmente como batedores. A divisão de cavalaria mais importante, os Companheiros, ficou inicialmente sob o comando de Filotas e, mais tarde, de Cleito e Heféstion. Estava dividida em oito esquadrões de 200 homens, cada um dos quais carregava uma lança de 2,7 m e usava armaduras leves. Devido ao extremo valor da cavalaria - 1.000 cavalos morreriam em Gaugamela - havia um suprimento constante de animais. Naturalmente, o esquadrão mais importante era o de Alexandre. O rei macedônico e seus Companheiros Reais sempre combatiam à direita, enquanto Parmênio comandava a cavalaria tessália, no flanco esquerdo. As táticas continuavam simples - os pezhetairoi marchavam contra o centro do exército inimigo num ângulo oblíquo, enquanto a cavalaria atacava e abria brechas nos flancos. Como a já abandonada falange hoplita, o novo exército estava planejado para atacar e permaneceu como uma arma puramente ofensiva. Embora soldados bem treinados sejam sempre essenciais para o sucesso, um exército precisa de boas lideranças e, além de Alexandre, as forças que cruzaram o Helesponto contavam com vários oficiais capazes: Parmênio, Perdicas (ou Pérdicas), Ceno, Cleito (ou Clito), Ptolemeu (ou Ptolomeu) e Heféstion.
Alexander dirigia o exército na tenda real, onde seus conselheiros de guerra se encontravam num grande pavilhão. A tenda também continha um vestíbulo, um arsenal e os aposentos pessoais do rei. Um destacamento especial de hipaspistas guardava o local em todos os momentos. Embora sempre ouvisse as sugestões do seu alto comando, a decisão de Alexandre era final. Isso ficou mais evidente antes da batalha em Gaugamela, quando Parmênio e vários outros oficiais sugeriram que Alexandre atacasse Dario à noite, o que Alexandre, é claro, recusou categoricamente: "Não vou roubar uma vitória".
Cruzando o Helesponto
Quando entrou na Ásia, o jovem rei trazia consigo 12.000 falangistas - 9.000 pezhetairoi e 3.000 hipaspistas. Também o acompanhavam mais de 7.000 soldados de infantaria gregos, a maioria dos quais utilizada como guarnições nas regiões conquistadas. Ainda que o exército que cruzou o Helesponto em 334 a.C. fosse principalmente macedônio, havia também soldados de toda a Grécia: agrianos, tribalianos, peônios e ilírios. Como Alexandre também era o líder da Liga de Corinto, várias cidades-estados gregas forneciam soldados, cavalaria e navios. Muitos desses mercenários falavam uma variedade de dialetos e vinham de províncias com uma longa história de tensão étnica. Por sorte, esta tensão foi reduzida ao mínimo. Após a derrota de Dario III em Gaugamela, em 331 a.C., Alexandre percebeu que precisava recompor suas forças e deu as boas-vindas a novos recrutas, entre os quais contavam-se vários persas, enquanto alguns dos veteranos voltaram para casa. Todos os novos recrutas, fossem recém-chegados da Macedônia ou recrutados de províncias locais, treinavam no estilo macedônio de combate.
A Liderança de Alexandre
No entanto, um exército - mesmo tão bem treinado quanto o da Macedônia - não poderia ter funcionado tão efetivamente sem a liderança capaz de Alexandre. Em seu livro Masters of Command: Alexander, Hannibal and Caesar, Barry Strauss compôs uma lista de traços necessários para uma boa liderança, entre os quais estão julgamento, audácia, agilidade, estratégia e terror. Alexandre apresentava todas estas qualidades. Embora demonstrasse respeito pelo inimigo, conforme ficou evidente após a Batalha do Isso, não temia ninguém. É citado por dizer que "Não tenho receio de um exército de leões liderado por uma ovelha; tenho receio de um exército de ovelhas liderado por um leão". Uma de suas habilidades mais admiráveis era antecipar a estratégia do oponente, com frequência atraindo-o para o terreno de sua preferência, como ficou evidente em Gaugamela. Por toda a conquista da Pérsia, Alexandre não necessariamente visava a deixar Dário de joelhos; queria apenas vencer.
O rei macedônio granjeou o respeito de seus homens e nunca traiu sua confiança, combatendo e comendo com eles e recusando-se a beber água quando não havia o suficiente para todos. De maneira simples, ele dava o exemplo. Como ficou evidente em Gaugamela, foi capaz de congregar os homens para lutar a seu lado. Plutarco, na obra Vida de Alexandre, o Grande, escreveu:
[...] ele fez um longo discurso para os tessálios e outros gregos e, quando viu que o encorajavam com gritos para que os liderasse contra os bárbaros, mudou sua lança para a mão esquerda e com a direita apelou aos deuses [...] orando a eles, como se realmente fosse fruto de Zeus, a defender e fortalecer os gregos [...] e após os encorajamentos mútuos e exortações, a cavalaria investiu a toda velocidade contra o inimigo [...]
Na obra As Campanhas de Alexandre, Arriano citou Alexandre dirigindo-se às tropas:
[...] Nós da Macedônia, por várias gerações, fomos treinados na dura escola do perigo e da guerra. [O rei comparou então os dois exércitos - da Macedônia e da Pérsia] ... e o quê, por fim, dos dois homens no comando supremo? Vocês têm Alexandre, eles têm Dario.
Antes de Filipe e Alexandre, os persas, liderados por Dario I e Xerxes, tinham sido repelidos por forças em menor número – os persas jamais haviam encarado antes algo como aqueles exércitos gregos. Porém, a força de combate que Alexandre conduziu através da Grécia e Pérsia fora ainda mais aperfeiçoada. Ele cruzou a Ásia Menor em direção à Índia enfrentando, com frequência, forças superiores em número. O uso eficaz da falange e da cavalaria, combinado com um senso inato de comando, colocava seus inimigos na defensiva, fazendo com que nunca perdesse uma batalha. A recordação de seus feitos perdurou e sua determinação levou a cultura helenística para a Ásia. Alexandre construiu cidades e mudou para sempre os costumes de povos inteiros.